quinta-feira, 5 de outubro de 2017

E o Prêmio Nobel vai para...


O escritor inglês Kazuo Ishiguro ganhou hoje o Prêmio Nobel de Literatura 2017 "por seus romances de grande força emocional que revelaram o abismo sob o nosso senso ilusório de conexão com o mundo", disse a Academia Sueca. Eu sempre lamento quando o prêmio não vai para uma escritora, mas hoje confesso que fiquei feliz com a premiação, pois Ishiguro escreveu um dos livros da minha vida (aquela listinha seleta de livros que me emocionaram muito e com os quais me identifiquei profundamente): Os vestígios do dia é um dos livros mais bonitos que eu já li. O filme, adaptado para o cinema em 1993, com Anthony Hopkins e Emma Thompson, também é incrível. (Clique para ver o filme). Também gostei bastante de Não me abandone jamais (Never let me go), que já virou filme.



Kazuo Ishiguro nasceu em 8 de novembro de 1954, em Nagasaki, no Japão. A família mudou-se para o Reino Unido quando ele tinha cinco anos. Ele só voltou para visitar seu país de origem quando adulto. No final dos anos 1970, formou-se em Inglês e Filosofia pela University of Kent, e depois estudou escrita criativa na University of East Anglia. Desde a publicação de seu primeiro romance, Uma pálida visão dos montes (A Pale View of the Hills) em 1982, é escritor em tempo integral. Ele ganhou o Booker Prize em 1989 por Os vestígios do dia. Os temas mais associados às suas obras são a memória, o tempo e a desilusão. Seus dois primeiros romances são ambientados em Nagasaki, logo após a Segunda Guerra Mundial. Além dos oito livros publicados, Ishiguro também escreveu roteiros para o cinema e televisão.

Obras de Kazuo Ishiguro:

(1982) Uma pálida visão dos montes (A Pale View of Hills)
(1986) Um artista do mundo flutuante (An Artist of the Floating World)
(1989) Os vestígios do dia (The Remains of the Day)
(1995) O Inconsolável (The Unconsoled)
(2000) Quando Éramos Órfãos (When We Were Orphans)
(2005) Não me abandone jamais (Never Let Me Go)
(2015) O Gigante Enterrado (The Buried giant)

(Informações traduzidas por mim e extraídas do site da Academia Sueca, aqui ).

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Dos direitos das mulheres



CONVENÇÃO INTERAMERICANA PARA PREVENIR,
PUNIR E ERRADICAR A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER,
“CONVENÇÃO DE BELÉM DO PARÁ”

(Adotada em Belém do Pará, Brasil, em 9 de junho de 1994,
no Vigésimo Quarto Período Ordinário de Sessões da Assembléia Geral)


            OS ESTADOS PARTES NESTA CONVENÇÃO,

            RECONHECENDO que o respeito irrestrito aos direitos humanos foi consagrado na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem e na Declaração Universal dos Direitos Humanos e reafirmado em outros instrumentos internacionais e regionais;

            AFIRMANDO que a violência contra a mulher constitui violação dos direitos humanos e liberdades fundamentais e limita total ou parcialmente a observância, gozo e exercício de tais direitos e liberdades;

            PREOCUPADOS por que a violência contra a mulher constitui ofensa contra a dignidade humana e é manifestação das relações de poder historicamente desiguais entre mulheres e homens;

            RECORDANDO a Declaração para a Erradicação da Violência contra a Mulher, aprovada na Vigésima Quinta Assembléia de Delegadas da Comissão Interamericana de Mulheres, e afirmando que a violência contra a mulher permeia todos os setores da sociedade, independentemente de classe, raça ou grupo étnico, renda, cultura, nível educacional, idade ou religião, e afeta negativamente suas próprias bases;

            CONVENCIDOS de que a eliminação da violência contra a mulher é condição indispensável para seu desenvolvimento individual e social e sua plena e igualitária participação em todas as esferas de vida; e

            CONVENCIDOS de que a adoção de uma convenção para prevenir, punir e erradicar todas as formas de violência contra a mulher, no âmbito da Organização dos Estados Americanos, constitui positiva contribuição no sentido de proteger os direitos da mulher e eliminar as situações de violência contra ela,

            CONVIERAM no seguinte:

CAPÍTULO I

DEFINIÇÃO E ÂMBITO DE APLICAÇÃO

Artigo 1

            Para os efeitos desta Convenção, entender-se-á por violência contra a mulher qualquer ato ou conduta baseada no gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto na esfera pública como na esfera privada.

Artigo 2


            Entende-se que a violência contra a mulher abrange a violência física, sexual e psicológica:

a.    ocorrida no âmbito da família ou unidade doméstica ou em qualquer relação interpessoal, quer o agressor compartilhe, tenha compartilhado ou não a sua residência, incluindo-se, entre outras formas, o estupro, maus-tratos e abuso sexual;

b.     ocorrida na comunidade e cometida por qualquer pessoa, incluindo, entre outras formas, o estupro, abuso sexual, tortura, tráfico de mulheres, prostituição forçada, seqüestro e assédio sexual no local de trabalho, bem como em instituições educacionais, serviços de saúde ou qualquer outro local; e

c.       perpetrada ou tolerada pelo Estado ou seus agentes, onde quer que ocorra.


CAPÍTULO II

DIREITOS PROTEGIDOS

Artigo 3

            Toda mulher tem direito a ser livre de violência, tanto na esfera pública como na esfera privada.

Artigo 4

            Toda mulher tem direito ao reconhecimento, desfrute, exercício e proteção de todos os direitos humanos e liberdades consagrados em todos os instrumentos regionais e internacionais relativos aos direitos humanos.  Estes direitos abrangem, entre outros:

a.       direito a que se respeite sua vida;

b.       direito a que se respeite sua integridade física, mental e moral;

c.       direito à liberdade e à segurança pessoais;

d.       direito a não ser submetida a tortura;

e.       direito a que se respeite a dignidade inerente à sua pessoa e a que se proteja sua família;

f.        direito a igual proteção perante a lei e da lei;

g.       direito a recurso simples e rápido perante tribunal competente que a proteja contra atos que violem seus direitos;

h.       direito de livre associação;

i.        direito à liberdade de professar a própria religião e as próprias crenças, de acordo com a lei; e

j.        direito a ter igualdade de acesso às funções públicas de seu país e a participar nos assuntos públicos, inclusive na tomada de decisões.

Artigo 5

            Toda mulher poderá exercer livre e plenamente seus direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais e contará com a total proteção desses direitos consagrados nos instrumentos regionais e internacionais sobre direitos humanos.  Os Estados Partes reconhecem que a violência contra a mulher impede e anula o exercício desses direitos.

Artigo 6

            O direito de toda mulher a ser livre de violência abrange, entre outros:

  a.     o direito da mulher a ser livre de todas as formas de discriminação; e

  b.     o direito da mulher a ser valorizada e educada livre de padrões estereotipados de comportamento e costumes sociais e culturais baseados em conceitos de inferioridade ou subordinação. 

Link para o documento completo, aqui

Leitura recomendada: Já se mete a colher em briga de marido e mulher.

Relógios da Violência

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Escuro


A CARTA
(Ana Luísa Amaral)

Senhores:
hão de a dor e a ausência ter sabor,
um certo cheiro doce e demorado,
em forma de mil olhos

Pois vós olhastes essa minha ausência,
dissestes que dali criei palavras,
mas não por minha mão

Na vossa história, senhores,
eu fui só voz,
em vez de gente inteira

Inteira, nunca o fui,
dobrada ao meio pelo escuro das vestes,
pelas juras forçadas que cumpri,
pelo dever que me ditou meu pai

Porém, fui eu que as fiz, às letras dessas cartas,
eu, que as fui construindo devagar,
na escuridão da cela

O resto foi roubado por vós
e noutra língua,
e em mitos que vos eram
necessários

Não fui só voz:
fui eu, dona de mim,
porque as letras me foram, e o amor,
e o ódio vagaroso

Só para isso me valeu viver,
para compor, igual a sinfonia,
tudo o que considerei

Ele foi só palavras que em palavras forjei,
bigorna onde moldei espadas e lanças,
o lume necessário

Só não moldei
as grades da prisão onde vivi:
essas, moldastes vós
até incandescência

Mas eu, nas letras que compus,
eu inventei a ausência como mais ninguém.
Eu fui a mão da ausência
numa cela escura

E os atos dele foram-me as metáforas,
imagens a seguir-me, mais fortes
do que a vida.
Por isso me chamastes, senhores,
no vosso tempo, uma palavra nova e ágil:
literatura

E assim eu fui-vos voz,
e doce mito. E nada mais
vos fui

Quero dizer-vos hoje,
neste tempo tão escuro,
mas de um escuro diverso do que tive:
adeus

Deixai-me o escuro, o meu.
Porque ao lado da minha,
a vossa ausência, essa que em mim plantastes,
nada é.
Tomáreis vós saber o que é ausência

Ausência: eu: demorada nestas linhas.
Dizer com quanto escuro
a noite se desfaz
e se constrói -

AMARAL, Ana Luísa. Escuro. São Paulo: Iluminuras, 2015. p. 47-48.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Na esperança, o homem


Da cabeceira do rio, as águas viajantes
não desistem do percurso.
Sonham.

A seca explode no leito vazio
e a pele enrugada da terra seca e
sonha.

O barco espera.
O sábio contemplativo aguarda.
O homem, ao peso de qualquer lenho,
Não se curva.
Sonha.

Sonha e faz
com o suor de seu rosto,
com a água de seus olhos,
com a fluidez de sua alma,
cospe e cospe no solo
amolecendo a pedra bruta.

Faz e sonha.

E no outro dia, no amanhã de muitos
outros dias, a vida ressurge fértil,
úmida,
alimentada pelo seu hálito.

E que venham todas as secas,
o homem esperançoso
há de vencer.

Conceição Evaristo. Poemas da recordação e outros movimentos. 3ª ed. Rio de Janeiro: Malê, 2017. p. 55-56.

domingo, 20 de agosto de 2017

O castelo de vidro



O castelo de vidro é um romance biográfico no qual a jornalista e escritora estadunidense Jeannette Walls narra suas memórias de infância e as memórias de sua família bem peculiar. Boêmios, errantes, sem vínculo a nenhum lugar e sem nenhum apego aos valores tradicionais, essa família atípica vive na verdade em condições insalubres, de muita pobreza e privações, fugindo de credores - mas tudo isso é mascarado e romantizado no discurso dos pais, que tentam convencer seus filhos e a si mesmos de que a vida que levam é por opção.

O pai de Jeannette era alcoólatra e não permanecia nos empregos por muito tempo. Quando bebia, sempre voltava para casa agressivo, principalmente com a esposa. Apesar de ser carinhoso com os filhos e ter um carinho especial pela filha Jeannette, que sempre acreditava em suas histórias mais mirabolantes, os problemas em família eram muitos: as crianças não frequentavam a escola, ficavam com frio e com fome porque ele gastava todo o dinheiro que recebia em bebidas e apostas, com roupas rasgadas e morando em casas em condições precárias ou mesmo dormindo ao relento enquanto a família inteira se mudava de cidade em cidade, carregando seus poucos pertences em um carro velho, que quase sempre os deixavam no meio do caminho.

Muito dessa negligência é narrada pela autora com certo romantismo. De certa forma, é de se imaginar que apesar de todos os problemas que ela descreve no livro, de tudo que os pais aprontaram com ela e os irmãos (e que a maioria das pessoas com bom senso considerariam negligência e irresponsabilidade) ela ainda sente por eles amor, talvez até mais compaixão. Há sempre uma passagem mais terna depois de um incidente bem problemático que faz com que o problema se suavize em uma leitura mais rápida. Ou talvez seja simplesmente o desejo da autora de não querer condenar os pais pelos seus erros, na tentativa de mostrar que também houve pontos positivos em sua criação.

Desde a infância que Jeannette ouvia do pai que ele construiria um castelo de vidro para a família: uma casa com telhado de vidro para que eles pudessem observar as estrelas e com tudo o que cada um deles sonhava em ter em uma casa, o que na época eles não tinham. Jeannette era a única que parecia ainda acreditar nessa promessa do pai, de que ele encontraria ouro ou ganharia muito dinheiro para construir o castelo de vidro. A irmã mais velha de Jeannette e a mãe já conseguiam perceber que isso era só mais uma das histórias do pai. Essa relação mais próxima entre Jeannette e o pai é narrada com sentimento pela autora, que ainda assim não deixa de registrar os momentos (muitos, na verdade) em que o pai a decepcionou. 

Foram muitas as questões que chamaram a minha atenção no livro. A primeira é como esse casal com cinco filhos conseguiu fugir das instituições responsáveis por proteger os menores de idade. Uma única tentativa de visita do oficial de justiça na casa dessa família é narrada pela autora e mesmo assim, depois disso ninguém mais aparece. O que nos faz pensar na fragilidade desse sistema de proteção que, mesmo com denúncias, provavelmente dos vizinhos, nada é feito pelas crianças.

A segunda questão são as inúmeras violências que as meninas e mulheres sofrem. Desde a mãe de Jeannette, que derruba a narrativa romântica do pai de como eles se casaram para revelar que ele não aceitava um não como resposta, às agressões verbais e físicas que a mãe sofria quando o pai voltava bêbado para casa. O impacto dessa violência na formação das crianças, que presenciavam tudo isso e “fingiam não ver” como uma forma de sobrevivência, é algo terrível de se imaginar. Nesse sentido o livro também mostra o impacto desses problemas na vida das crianças quando toda a família precisa voltar para a cidade natal do pai e morar na casa da avó paterna, também alcoólatra, e esse período é suficiente para que as crianças também compreendam o que o pai deles havia sofrido.

A própria Jeannette é atacada por um dos meninos do bairro que quer namorar com ela (ela nem tinha doze anos na época) e esse acontecimento é silenciado porque ela conseguia pressentir, desde aquele momento, que isso traria muitos problemas para ela, ou seja, as mulheres dessa família já crescem aprendendo que o silêncio é o caminho que a mulher deve tomar nessa sociedade. Pouco tempo depois, ela é assediada dentro de casa por um tio e quando relata o ocorrido para a mãe esta é a resposta (que me deixou bastante inconformada, para usar um eufemismo, tamanho foi o absurdo do argumento e a negligência da mãe):

“Está tudo certo – disse, e explicou que agressão sexual era um crime de percepção. – Se você não acha que foi agredida, não foi. Muitas mulheres fazem escândalo demais com essas coisas. Mas você é mais forte que isso – falou, e voltou às palavras cruzadas” (WALLS, p. 215).

Além disso, uma das colegas de escola de Jeannette, quando mais tarde eles retornam para a cidade natal do pai e voltam a frequentar a escola, tem uma significativa mudança de comportamento, que chama a atenção de Jeannette e que ela explica como sendo pela mudança do namorado da mãe para casa onde ela morava. Pouco tempo depois a menina diz estar grávida, não aparece mais na escola e quando Jeannette vai até a casa dela saber o que está acontecendo o namorado da mãe não permite que ela fale com a amiga. E essa violência, tão evidente para quem lê, é só mais uma das muitas violências descritas no livro que ficaram por isso mesmo.

O ponto alto do livro talvez seja mostrar a determinação dessas crianças em lutar pelo sonho de sair dali, de ter uma vida melhor e fazer tudo para conseguir isso. Certamente foi uma infância bastante prejudicada pela preocupação que tinham com a comida, com o frio, com as roupas, às vezes agindo com mais maturidade que os próprios pais. De tão surreal, por vezes queremos acreditar que essa história é ficção, mas infelizmente não é. Talvez por isso nós sentimos (ou a autora mesmo) o desejo de extrair dessa história algo positivo.

Vejo o livro como uma forma de a autora exorcizar esse passado e talvez ficar em paz com suas próprias lembranças. Sem dúvida é uma história que nos inquieta e faz pensar em quão complexas são as relações familiares - nunca perfeitas, é certo – mas em alguns casos bastante problemáticas. É importante ter em mente isso durante a leitura, e reconhecer e nomear essas violências que acabam por ser naturalizadas ao se transformarem em apenas mais uma história.


*Recebi este livro como cortesia da Editora Globo Livros.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Drummond

Carlos Drummond de Andrade. Eterno.
(31 de outubro de 1902 - 17 de agosto de 1987)

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Cozinha de afeto


Quem me conhece sabe o quanto gosto de histórias que misturam receitas e a paixão pela culinária. Mais que um livro de receitas, Cozinha de afeto, de Alexandra Gonsalez e Sônia Xavier, é um livro de histórias de mulheres que vieram para o Brasil em diferentes épocas e condições e aqui construíram parte de sua história de vida, sempre ligadas pelos ingredientes e temperos de sua terra natal. 

Na bagagem de qualquer imigrante, além de alguns objetos que carregam memórias afetivas, há também as lembranças dos aromas e sabores e as receitas, muitas vezes passadas de geração para geração, de sua culinária. 

Nesse livro, são doze mulheres imigrantes, vindas de Angola, Alemanha, Argentina, Colômbia, Etiópia, Espanha, Índia, Irã, Japão, Grécia, Itália e Ucrânia, que reconstituem uma pouco de sua história e da história de suas famílias ao narrar as lembranças associadas a uma refeição de família, e aos sabores dos ingredientes muitas vezes só encontrados em sua terra natal, que precisaram ser substituídos aqui no Brasil. O resultado são receitas e histórias cheias de paixão, que descrevem os sentimentos vividos nesse percurso: da viagem e do estranhamento ao chegarem aqui, à saudade de casa e os novos encontros realizados aqui no país. Como em uma boa comida, a prova de que é a mistura de temperos (e de culturas) que rende uma boa história.


domingo, 23 de julho de 2017

Elas por elas


Qualquer lista ou seleção sempre deixa de incluir algo, não tem jeito. No caso dessa antologia, organizada por Rosa Amanda Strausz, não é diferente. Basta uma rápida olhada nos nomes listados na capa para perceber que são todas autoras brancas e já consagradas no campo literário brasileiro. Não que por isso muitas delas não sejam excelentes, porque são. Mas eu particularmente acho que a graça das antologias é justamente esta: permitir que a gente conheça novas autoras ou autoras cujos trabalhos não sejam fáceis de encontrar (no caso do Elas por Elas, apenas o texto de Pagu se encaixa nessa categoria). O olhar crítico, no entanto, me faz questionar por que outros nomes indispensáveis de nossa literatura não fazem parte dessa seleção. Mas, como já mencionei, toda seleção é o olhar de uma pessoa e é quase impossível agradar a todos, não é mesmo?

Em tempos de Leia Mulheres, no entanto, a antologia Elas por Elas é uma ótima opção para quem quer ampliar suas leituras de textos escritos por mulheres. O livro traz textos (contos, crônicas e poemas) de importantes escritoras brasileiras que, mesmo que você já tenha lido algum texto delas na escola, ainda há muito mais por ler. Para quem já tem alguma leitura dessas autoras, como foi meu caso, o livro pode perder um pouco o encanto, mas, mesmo assim, ainda me encantei com o conto de Maria Valéria Rezende e o de Nélida Piñon, de quem ainda não havia lido nada e fiquei mesmo com vontade de ler tudo. Destaco também o conto de Lígia Fagundes Telles, de Clarice Lispector e Cintia Moscovich que estão entre os cinco melhores pra mim.

Se você conhece alguma outra antologia bacana, escreve pra mim nos comentários, vou adorar receber sua indicação =]

                                                                                        

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Contemporâneo



Que te devolvam a alma
Homem do nosso tempo.
Pede isso a Deus
Ou às coisas que acreditas
À terra, às águas, à noite
Desmedida,
Uiva se quiseres,
Ao teu próprio ventre
Se é ele quem comanda
A tua vida, não importa,
Pede à mulher
Àquela que foi noiva
À que se fez amiga,
Abre a tua boca, ulula
Pede à chuva
Ruge
Como se tivesses no peito
Uma enorme ferida
Escancara a tua boca
Regouga: A ALMA. A ALMA DE VOLTA.


Hilda Hilst. Da poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

sábado, 29 de abril de 2017

O fio da palavra



"Minha memória tem espaço para infinitas paisagens. Tudo que desconheço minha memória inventa. 
Mas hoje acordei sem coceira nos dedos. Despertei vazio de pensamentos. Um grande nada acordou comigo. Não quero jardim, deserto ou mar. Há dias em que a preguiça de pensar me persegue. A memória exige trégua para descansar. O mundo inteiro parece vivido.
A vida se nega a novas notícias. O coração parece bater desafinado - sem corda - e pulsa quase parando sem força para fortes fôlegos. Ter memória é embriagar-se de lucidez."

Bartolomeu Campos de Queirós, O fio da palavra